Um mártir diferente que interpela a moral eclesiástica

Por Marcelo Barros

Nesses dias completam-se 17 anos do martírio do Padre Gisley Azevedo Gomes, da Congregação dos Estigmatinos e assessor nacional da  Juventude junto à CNBB. Vocês não encontrarão o seu nome em nenhuma lista oficial de mártires e, se nós da caminhada da Igreja inserida e dos movimentos ecumênicos de juventude, não recordarmos a sua memória, ele permanecerá, totalmente, esquecido e teremos colaborado com os que preferem apagar a história do seu martírio.

De fato, o Padre Gisley não é mártir no mesmo estilo dos grandes mártires da terra, como nossos queridos Josimo Tavares e Ezequiel Ramin, nem morreu com a Bíblia nas mãos, como o fez a Irmã Dorothy Stang. No entanto, nem por isso, ele é menos testemunha do projeto divino no mundo. Merece, sim, ser recordado como mártir da Pastoral da Juventude. O seu martírio, além de recordar a violência estrutural das periferias de nossas cidades, interpela também as estruturas eclesiásticas rígidas, que nem sempre sabem dialogar com a realidade do mundo que nos cerca e com os desafios pessoais dos jovens que entram em nossas congregações. 

Havia dois anos que, com 30 anos de idade, o Padre Gisley era assessor do setor de Juventude na CNBB. Em seu ministério, trabalhava, principalmente, em denunciar e combater a violência contra a juventude pobre, majoritariamente, negra nas periferias de nossas cidades. Denunciava que, em muitos casos, jovens e adolescentes são eliminados por membros da força policial, que deveria protegê-los. Em Brasília, Gisley sabia dos riscos que corria, por seu nome aparecer em algumas denúncias de execuções sumárias e por ele ter investigado nomes de policiais envolvidos nos crimes.

No dia 16 de junho de 2009, depois de desaparecido por quase dois dias, o seu corpo foi encontrado, baleado e com sinais de tortura, em uma estrada marginal de uma cidade satélite do DF. A versão dos policiais foi que o padre tinha sido atraído por um rapaz de programa para um encontro sexual e caiu na cilada. Teria sido assaltado e assassinado por três jovens marginais.

No dia seguinte, a presidência da CNBB emite uma nota de pesar na qual declara: “A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, profundamente consternada, comunica o assassinato do padre Gisley Azevedo Gomes, assessor nacional do Setor Juventude desta Conferência, ocorrido ontem, 15 de junho. O crime está sendo investigado com empenho pela Polícia com o acompanhamento dos advogados da CNBB e da Congregação dos Sagrados Estigmas (Estigmatinos), à qual padre Gisley pertencia.

O padre Gisley estava na assessoria do Setor Juventude da CNBB há pouco mais de dois anos. Comprometido com a vida da juventude, organizava, juntamente com as Pastorais da Juventude do Brasil, a Campanha Nacional contra o Extermínio da Juventude, que tem como lema “Juventude em marcha contra a violência”. Lamentavelmente ele foi vítima da violência que ansiava combater”.

Pelo silêncio que se seguiu a essa nota e pelo fato de que o nome do Padre Gisley quase nunca consta na lista de mártires a ser celebrados, permanece a impressão de que, ao menos, parte da hierarquia, do clero, assim como membros da sua congregação acreditaram na versão da polícia e consideraram o caso como mais um crime cometido contra pessoas homoafetivas e com o agravante de envolver um menor de idade.

Apesar de que a probabilidade maior é de que tudo tenha sido uma história montada pela polícia, imaginemos, por um momento, a possibilidade de que o padre Gisley que, depois de morto, foi acusado de que costumava fazer programas sexuais com rapazes, tenha, realmente, caído em uma cilada, armada a partir de um costume seu, que seria conhecido por parte dos que o queriam ver morto.

Não importa se a natureza do encontro era com homem ou com mulher. Mesmo se a verdade for essa, ele pode, mais ainda, ser considerado mártir de uma sociedade cruel com a juventude marginalizada e empobrecida, que Gisley mesmo defendia, mas também representava. No caso em que as circunstâncias da sua morte tenham sido, realmente, essas, então, ele é também mártir de uma instituição eclesiástica que envia jovens à arena de um mundo desumano e cruel, ao mesmo tempo que espera deles, cada vez que voltam ao convento, que entrem na máquina do tempo e vivam como se estivéssemos, como afirmou o Cardeal Martini na entrevista dada na véspera da sua morte, há duzentos anos atrás.

O  martírio de um padre generoso na missão e dedicado à inserção, como o Padre Gisley, nos seus 30 anos de idade, nos interpela sobre como, na maioria das congregações religiosas, ainda é tratada a realidade afetivo-sexual das pessoas. Há algum tempo, alguns diziam que, se a maioria dos religiosos e religiosas pratica o voto de castidade, do jeito que vive o voto de pobreza, o caso é seríssimo. Seja como for, o problema não é apenas se o voto de castidade é bem ou mal vivido e sim que sentido tem, hoje, esse voto, da forma como é pensado, para ser sinal do reino de Deus no mundo. Além disso, seja como for, precisamos ver se o estilo de vida conventual que a maioria das congregações ainda mantém, ajuda, de fato, a viver a “perfeita caridade” (Perfectae Caritatis), como propôs o Concílio Vaticano II, amor solidário sem o qual o celibato se torna, apenas, esquisitice de solteirões.  

É essa caridade que o martírio do Padre Gisley pede de nós e concretiza-se na coragem de dialogar com situações humanas de profunda fragmentação interior de muitos irmãos e irmãs de ministério e de vida consagrada, que precisam ser compreendidos em sua carência afetiva. Conforme a tradição espiritual mais profunda, deveríamos assumir a encarnação do Verbo Divino, no meio dos conflitos existenciais de cada irmão e sustentá-lo no seu caminho espiritual, mesmo no meio das aparentes contradições da vida. Fiquemos com uma palavra do Padre Gisley que mantém cada vez mais atualidade:

“Vamos gritar, girar o mundo  chega de violência e extermínio de jovens”.

Que, do céu, o mártir Gisley nos acompanhe e proteja nesse caminho. 

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