Romaria dos mártires da caminhada: uma celebração de “testemunhas da esperança”

Autores: Equipe de Liturgia da Romaria dos Mártires*

A Romaria do Mártires da Caminhada Latino-Americana, em 2026, se somou – em seu tema – às celebrações do Jubileu da Esperança, convocado pelo Papa Francisco para o ano santo de 2025. As mulheres e homens que derramaram seus sangues pela causa da justiça do Reino de Deus deram o testemunho maior da esperança pascal. As romeiras e romeiros que se reuniram, por ocasião dos 50 anos do martírio do Pe. João Bosco P. Burnier, em Ribeirão Cascalheira-MT, na prelazia de São Félix do Araguaia, também testemunham a esperança de um outro mundo possível, bem-aventurado conforme o Evangelho.

Foram muitas celebrações. Depois de rezarmos com as comunidades do sertão e da cidade durante várias noites, fazendo memória dos mártires e da história do martírio do Padre João Bosco, iniciamos, na quarta-feira, dia 15 de julho, o Tríduo em preparação à Romaria. Foram dias de memória e gratidão, recordando o Mártir Jesus de Nazaré e celebrando os 50, os 40, os 30, os 25 e os 10 anos do martírio de tantos irmãos e irmãs que, em nosso tempo, entregaram suas vidas pelas causas do Reino.

Ao entardecer do dia 18 de julho, na praça da Igreja São João Batista, em Ribeirão Cascalheira-MT, este chão, tantas vezes banhado de suor e sangue, abriu-se em flores de alegria, em flores pascais, para acolher romeiras e romeiros vindos de longe e de perto; das aldeias e das matas, do sertão e das cidades, do Cerrado e do Pantanal, da Mata Atlântica e da Caatinga, dos Pampas e da Amazônia.

E assim, como um grande rio de gente, de fé e de esperança, iniciamos juntos a Romaria dos Mártires da Caminhada de nossa América. A saudação inicial foi feita por nosso bispo, Dom Lúcio. Em seguida, ao toque do tambor, no ritmo das batidas de nossos corações, foram chamados os nomes dos mártires jubilares:

  • Padre Rodolfo Lunkenbein, mártir da terra indígena, Meruri-MT – 50 anos
  • Simão Bororo, mártir indígena, Meruri-MT – 50 anos
  • Vladimir Herzog, jornalista, Mártir da Verdade, São Paulo – 50 anos
  • Héctor Gutiérrez e Zelmar Michelin, Militantes cristãos e políticos, Uruguai – 50 anos
  • Arturo Bernal, dirigente rural, Paraguai – 50 anos
  • Dom Enrique Angelelli, Profeta e bispo dos pobres, Argentina – 50 anos
  • Irmã Adelaide Molinari, Mártir da Justiça, Eldorado dos Carajás-PA – 40 anos
  • Irmã Cleusa Rody Coelho, Mártir da Causa Indígena, Lábrea-AM – 40 anos
  • Padre Josimo, Comissão Pastoral da Terra, Bico do Papagaio-TO – 40 anos
  • Padre Ezequiel Ramin, CIMI e CPT, Cacoal-RO – 40 anos
  • Vilmar José e Castro, Catequista e CPT, Caçu-GO – 40 anos
  • Nativo da Natividade, Mártir da Reforma Agrária, Carmo do Rio Verde-GO – 40 anos
  • Massacre de Eldorado dos Carajás-PA – 30 anos
  • Manoel Maria de Souza, Militante do MST, Suzano-SP – 25 anos
  • Berta Cáceres, Mártir ambientalista, Honduras – 10 anos

Um a um, seus estandartes foram entronizados, enquanto a assembleia respondia com voz forte e unida: “Testemunhas da Esperança!”

Logo, o povo entoou “Vidas pela Vida”, e tantos outros estandartes de mártires, foram chegando, colorindo e enfeitando a praça. Era como se o céu dos mártires se abrisse sobre nós, trazendo à memória aqueles que tombaram, mas cuja esperança continua viva e fecunda. Então, um grupo de jovens, meninas e meninos, dançou “Ribeirão Bonito – Cruz do Padre João”, numa belíssima coreografia que evocou a libertação do povo oprimido. Seus passos e seus gestos recordavam que, do sangue dos mártires, nasce a esperança de um povo que não se conforma com a opressão e continua caminhando em busca da libertação.

Em seguida, os jovens se posicionaram para acolher a entrada da Cruz do Padre João Bosco. Era a mesma cruz fincada na terra durante a derrubada da cadeia, no sétimo dia após o seu martírio. Erguida nos braços da juventude, ela adentrou o espaço celebrativo ladeada por mulheres negras, que espalhavam o perfume do incenso enquanto o tambor marcava o ritmo da caminhada. A cada batida, parecia pulsar também o coração do povo, fazendo memória do mártir e renovando a esperança que continua viva entre nós.

Um jovem e uma jovem proclamaram a Palavra de Deus, da Carta de São Paulo aos Romanos, capítulo 5, iluminando nossos passos com a esperança que insiste em nascer, mesmo quando tudo parece perdido. A Palavra foi seguida pelo responso: “Povo que és peregrino, buscas a libertação…”

Ao toque profundo do berrante, indígenas acenderam a grande fogueira no centro da praça. Quatro tochas se ergueram como sinais de luz em meio às sombras. Depois da benção do fogo, uma mulher acendeu o Círio Pascal no fogo novo e proclamou: “A luz de Cristo, que resplandecente ressuscita, dissipe as trevas do nosso coração, dissipe as trevas da nossa mente!”. E a luz começou a se espalhar de mão em mão, de coração em coração, como o sopro do Espírito que sopra onde quer. Era o vento de Deus gerando vida, despertando consciências, tocando profundamente cada pessoa para levar a Boa-Nova por sobre os telhados do medo e lançar-se, com coragem, contra toda forma de injustiça, como um furacão de verdade.

Então, os animadores fizeram o convite para a caminhada em busca da Terra sem Males. E seguimos carregando a Cruz do Padre João, em comunhão com tantas outras cruzes plantadas à beira da estrada: a Cruz do Martírio dos Povos Originários; a Cruz do Martírio da Terra e das Causas Ecológicas; a Cruz do Martírio das Mulheres e da população LGBTQIAPN+; a Cruz do Martírio das Juventudes e das Crianças; e a Cruz dos Mártires vítimas das Guerras. Eram cruzes que, como grandes setas apontando para o horizonte, nos indicavam o caminho: A liberdade é para lá!

Caminhamos em direção ao Santuário dos Mártires da Caminhada. Diante de cada cruz: incenso, flores e memória. Na última, a Cruz dos Mártires das Guerras, uma enorme bandeira da Paz foi aberta sobre o povo. E, então, um grito forte, profundo e coletivo ecoou por toda parte: PAZ! Paz para o mundo! Paz para os povos! Paz para a Terra! Paz para todas as criaturas! E seguimos cantando em direção ao Santuário: “Dá-nos, Senhor, aquela paz estranha que brota em plena luta…”. Aquela paz que não é silêncio diante da injustiça, mas coragem para enfrentá-la. A paz que renasce quando o povo se une, quando a esperança resiste e quando a vida vence a morte.E como era bonita a mão que conduzia a bandeira da Paz!

Ao chegarmos ao Santuário, a Cruz do Padre João, trazida pelo povo, foi erguida, incensada e rodeada de flores. A cruz, sinal de morte e de ressurreição, tornou-se novamente presença viva entre nós.

Dom Eugênio Rixen, bispo emérito de Goiás, nos introduziu em um profundo momento penitencial. Tocamos a terra. Com as mãos sobre o chão, reconhecemos nossas fragilidades. Pedimos perdão pelas vezes em que, por medo, permanecemos calados diante da morte e da injustiça. E, depois do pedido de perdão, recebemos a absolvição, como quem se levanta novamente para continuar a caminhada.

Então, o grupo de canto começou a entoar “Cio da Terra”. Cozinheiras e cozinheiros entraram trazendo alimentos e bebidas, colocando-os diante do altar para a bênção. Em seguida, tudo foi partilhado. E a festa continuou.

Terminamos aquela noite fortalecidos pelo alimento do corpo e da alma. Comemos, bebemos, cantamos e dançamos. Celebramos a vida numa grande festa, daquelas que não terminam quando a música silencia, mas que permanecem para sempre dentro de nós.

 Na manhã de domingo, o sol do amanhecer veio nos visitar. Depois do café, reunimo-nos na praça do Santuário dos Mártires para a celebração da Ceia do Senhor. O Círio Pascal foi solenemente aceso e incensado por mulheres, juntamente com o altar e todo o povo reunido. E a assembleia cantou outra vez com força e emoção: “Vidas pela Vida…”. Após uma breve acolhida, um corredor de flores, formado também por mulheres, abriu espaço para a passagem das procissões de entrada e da Palavra.

E começamos cantando: “Nele a esperança da vida, escudo e certeza de nossa vitória…”

No rito penitencial, fomos aspergidos e aspergidas por mulheres, num gesto de purificação e renovação. Em seguida, elevamos o Hino de Louvor e acolhemos solenemente o livro da Palavra de Deus.

Foram proclamadas as leituras do Livro da Sabedoria (12,13.16-19), o Salmo 85(86), a Carta de São Paulo aos Romanos (8,26-27) e o Evangelho de Mateus (13,24-43). Depois da proclamação do Evangelho, o versículo 43 – “Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai” – foi repetido em várias línguas por romeiros e romeiras vindos dos mais diversos cantos do mundo. Era a Palavra atravessando fronteiras. Era a esperança falando todas as línguas. Era a memória dos mártires tornando-se universal.

As preces foram feitas sob a forma da Ladainha dos Mártires, trazendo para o coração da celebração os nomes e as causas daqueles e daquelas que testemunharam a fé com a própria vida.

Na hora da comunhão, todos e todas receberam o Corpo e o Sangue de Cristo nas duas espécies, com pão ázimo, numa profunda experiência de partilha, fraternidade e unidade.

Ao final da celebração, ouvimos emocionados os depoimentos de testemunhas da primeira hora do martírio do Padre João Bosco: Mada e Bia, que carregam em suas memórias os acontecimentos daquele dia; Noilda, irmã do mártir Vilmar de Castro; Edite, sobrinha de Santana, que foi uma das mulheres pela qual o pe. João Bosco foi até a cadeia para interceder. Também fizeram uso da palavra Glória e Laura, sobrinhas do bispo Pedro Casaldáliga, que, com suas presenças e atitudes, ajudam a manter vivas a história e a memória dos nossos mártires. E então, como se o tempo se abrisse diante de nós, vimos e ouvimos um vídeo do nosso querido bispo Pedro. Uma voz que não envelheceu. Uma voz que continua nos inquietando, nos chamando e nos convocando.

Pedro nos pede que não nos esqueçamos dos pobres. Que não abandonemos a opção pelos pobres. Que não deixemos cair no esquecimento o sangue dos mártires. Que assumamos as causas pelas quais eles entregaram suas vidas. Que façamos da memória compromisso e força para continuar caminhando. Sua voz nos chama a assumir a Romaria dos Mártires. A cuidar dela. A multiplicá-la. A levá-la adiante, para que nunca se perca a memória daqueles e daquelas que tombaram defendendo a vida, a justiça, a dignidade e a esperança.

Mas, Pedro também nos conhece. Conhece nossas dores, nossas fraquezas e nossos cansaços. Sabe que, muitas vezes, a caminhada pesa. Que há momentos de amargura, de decepção e de desânimo. Que, às vezes, parece que as forças diminuem e que os sonhos se tornam distantes. Apesar disso, sua voz nos lembra, com a força de um profeta, que não podemos desistir, que isso é pecado, é heresia. Porque somos o povo da esperança.

Somos o povo da Páscoa. Somos o povo que aprendeu a nascer de novo depois de cada cruz. A esperança é a nossa teimosia. É aquilo que nos faz levantar quando tudo parece perdido. Podem nos tirar tudo, menos a fiel esperança. Por isso, precisamos continuar espalhando vida. Precisamos continuar acreditando. Precisamos continuar caminhando.

Depois, entoamos uma saudação a Maria: “Maria de Deus, Maria da gente, da singeleza da flor…”. E recebemos a bênção, presidida por Dom Lúcio. Então, novamente, colocamo-nos a caminho. Voltamos para a praça da Igreja São João Batista cantando “Ribeirão Bonito, cruz do Padre João”. E, ali, como uma grande família reunida, fomos acolhidos com um delicioso almoço, preparado com carinho e dedicação pelas mulheres e homens de nossas comunidades. A mesa estava posta. O pão era partilha. A comida era gesto de cuidado. O encontro era comunhão. E a gratidão se fazia presente em cada rosto, em cada abraço, em cada sorriso.

Assim terminou mais uma Romaria dos Mártires da Caminhada Latino-Americana. Todavia, na verdade, ela não terminou. Porque a Romaria continua dentro de nós. Continua na memória dos mártires. Continua na luta dos povos. Continua na defesa da Terra. Continua na voz das mulheres, das juventudes, das crianças e dos povos originários. Continua no grito pela Paz. Continua na coragem daqueles que não se calam diante da injustiça. Continua na esperança que nasce teimosamente, mesmo em meio às dores e às cruzes.

Seguimos caminhando. Seguimos testemunhando. Seguimos acreditando. Porque os mártires nos ensinaram que a vida entregue por amor nunca é perdida. E que, quando a esperança parece pequena, Deus faz dela uma chama. Uma chama que passa de mão em mão. De coração em coração. De geração em geração. Somos povo peregrino. Somos memória e resistência. Somos testemunhas da esperança. E, enquanto houver alguém disposto a caminhar, a lutar, a amar e a entregar a vida pela Vida, a Romaria dos Mártires continuará acontecendo. Sempre. Porque a esperança não morre. A esperança caminha conosco.

* Equipe de Liturgia da Romaria: Silvia L. Barroso, Jacira Martins, João Marcos Picarti, Daniel Carvalho e Mirim Borges

[Fotos de Bianca Ortega e Leonardo Melgarejo]

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