Por Padre Francisco de Aquino Júnior[1]
Nos dias 18-19 de julho teremos Romaria dos Mártires da Caminhada em Ribeirão Cascalheira – MT, Prelazia de São Félix do Araguaia, terra do profeta Pedro Casaldáliga, celebrando os 50 anos do martírio do padre João Bosco Burnier. Ele foi assassinado em 1976, quando intercedia com o bispo Pedro pela libertação de Margarida e Santana que estavam sendo torturadas na delegacia local. Aí foi construído o Santuário dos Mártires da Caminhada Latino-americana, onde se celebra a memória de seu martírio e do martírio de tanta gente comprometida com as causas e as lutas de libertação de nosso povo: “Vidas pela vida”! “Vidas pelo Reino”! “Vidas pelo Reino da vida”! “Testemunhas do Reino”! “Profetas do Reino”! “Tudo pelo Reino”! “Testemunhas da esperança”!
O compromisso evangélico da Igreja latino-americana com os pobres, oprimidos e marginalizados e suas lutas por libertação tem levado à perseguição e ao assassinato de muita gente: animadoras/es de comunidades e agentes de pastoral; religiosas/os, padres e bispos; lideranças indígenas, quilombolas e camponesas; militantes de organizações e movimentos populares. Em sua imensa maioria, gente de fé, gente de Igreja, gente que busca ser fiel ao Evangelho de Jesus Cristo na luta pelos direitos humanos, pela justiça socioambiental, pelo cuidado da casa comum. Pessoas assassinadas, não apenas por se declararem cristãs, mas por viverem o mandamento do amor até as últimas consequências, lutando para que “todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).
Essa situação obrigou a repensar e alargar a compreensão de martírio na Igreja. Historicamente, o martírio está mais ligado a contextos, onde predominam outras tradições religiosas, onde a fé cristã é proibida ou apenas tolerada, onde há muitas restrições e até perseguição à Igreja. Isso levou a uma associação e quase identificação entre martírio e “ódio à fé” (odium fidei): Mártir é aquele/a que é assassinado/a por “ódio à fé” e por inimigos da fé e da Igreja. Mas a situação vivida na América Latina nas últimas décadas é muito diferente. Primeiro, porque se trata de um continente, no qual a imensa maioria do povo se declara cristã-católica. Segundo, porque o martírio não é provocado direta e explicitamente por “ódio à fé” (por causa da confissão de fé), mas por “ódio” às exigências ou consequências da fé (por causa da vivência da fé); nem é executado por inimigos declarados da Igreja (outras religiões ou ateus), mas por pessoas que se declaram cristãs-católicas. É uma situação muito paradoxal: cristãos perseguidos por “cristãos” por causa da vivência da fé, por fidelidade ao Evangelho.
O caso mais emblemático aqui é sem dúvida o bispo salvadorenho Oscar Romero, assassinado em plena celebração eucarística no dia 24 de março de 1980: difamado e caluniado pela elite católica (fazendeiros, militares, imprensa etc.) e até por setores da Igreja, “abandonado por [seus] próprios irmãos de báculo e mesa” (Pedro Casaldáliga), assassinado por pessoas que se diziam cristãs-católicas. O Papa Francisco chamou atenção para um fato importante: “O martírio de D. Romero não teve lugar unicamente no momento da sua morte; tratou-se de um martírio-testemunho, de um sofrimento anterior, de uma perseguição precedente, até à sua morte. Mas também posterior porque, depois de morto ele foi difamado, caluniado, desonrado, isto é, oseu martírio continuou até por parte dos seus próprios irmãos no sacerdócio e no episcopado”, acrescentando: “não são coisas que me contaram, mas ouvi-as eu pessoalmente”[2]. E Oscar Romero é apenas expressão emblemática de uma grande “nuvem de testemunhas” (Hb 12,1), uma multidão de homens e mulheres que foram fiéis até fim, derramando o sangue, entregando a própria vida no cuidado e na defesa da vida, que é o dom maior que Deus nos deu e a missão primeira e mais importante que ele nos confiou.
Jon Sobrino, jesuíta espanhol-salvadorenho, testemunha de tantos martírios, ele próprio um mártir-sobrevivente, é o teólogo que mais refletiu sobre o martírio na América Latina, aprofundando e alargando sua compreensão na Igreja: “Mártir não é só nem principalmente o que morre por Cristo, mas o que morre como Jesus; mártir não é só nem principalmente o que morre por causa de Cristo, mas o que morre pela causa de Jesus […]. O essencial do martírio está na afinidade com a morte de Jesus”: no como e no porque da morte. Nossos mártires não são mártires simplesmente por se declararem cristãos ou por defenderem interesses ou privilégios institucionais da Igreja, mas por causa da fidelidade ao Evangelho do Reino que é boa notícia para os pobres e marginalizados. Em sentido estrito, “não são martires da Igreja, embora [em sua grande maioria] vivam e morram na Igreja, mas mártires do Reino de Deus, da humanidade”[3].
O Documento de Aparecida recorda com gratidão o “testemunho valente” daqueles/as que “viveram com radicalidade o Evangelho e ofereceram sua vida por Cristo, pela Igreja e por seu povo” na América Latina e no Caribe: “Seu empenho em favor dos mais pobres e sua luta pela dignidade de cada ser humano tem ocasionado, em muitos casos, a perseguição e inclusive a morte de alguns de seus membros, os quais consideramos testemunhas fiéis”[4]. O Documento Final do Sínodo da Amazônia chega a afirmar que “uma das páginas mais gloriosas da Amazônia foi escrita pelos mártires” e “reconhece com admiração aqueles que lutam, arriscando suas próprias vidas, para defender a existência desse território”[5]. Foi bonito ver estampado na sala sinodal o rosto de tantos mártires da caminhada: Romero, Ezequiel, Josimo, Marçal, Simão Bororo, Chico Mendes, Vicente Cañas, Adelaide, Cleusa, Dorothy etc. E, mais recentemente, falando dos mártires do nosso tempo, daqueles “que pagam com a vida a fidelidade ao Evangelho, o compromisso com a justiça, a luta pela liberdade religiosa onde ela ainda é violada, a solidariedade com os mais pobres”, o Papa Leão XIV recordou Ir Dorothy Stang, “empenhada na causa dos sem-terra na Amazônia”[6].
Tudo isso mostra como a realidade do martírio na América Latina nas últimas décadas alargou e enriqueceu a compreensão do martírio na Igreja: não apenas por “ódio à fé” (odium fidei), mas também e sobretudo por “ódio à justiça” (odium justiciae), compreendendo que “no evidente odium justiciae está implícito, mas muito realmente presente, o odium fidei”[7]. Oscar Romero, por exemplo, não foi assassinado apenas porque professava a fé cristã e era bispo (ódio à fé/Igreja), mas porque viveu com fidelidade o Evangelho de Jesus Cristo, denunciando as injustiças, defendendo os pobres, apoiando suas lutas por libertação (ódio aos pobres, à justiça, ao bem comum). É outra forma de martírio, como bem reconhece e expressa Leão XIV: daqueles/as “que pagam com a vida a fidelidade ao Evangelho, o compromisso com a justiça, a solidariedade com os mais pobres”. São mártires da justiça do Reino. São mártires da caminhada de libertação…
A memória dos mártires da caminhada ocupa um lugar muito importante na Igreja latino-americana, sobretudo nos setores eclesiais mais vinculados às lutas e organizações populares. Ela se dá em romarias, vigílias e celebrações; hinos, painéis, camisetas, bonés e memoriais; dando nome a ocupações, assentamentos, organizações, comunidades, centros, escolas, ruas etc. E acontece de modo muito particular no já consagrado ritual de memória: Presente! Presente! Presente! Não se trata simplesmente de uma lembrança do passado (um herói morto!), mas da confirmação e atualização em nossas vidas de seu compromisso com as causas e lutas populares (um companheiro vivo e presente na caminhada!). Nunca se pode separar um mártir da causa e do povo por quem deu a vida. Nem se pode separar a memória dos mártires das lutas atuais por libertação. Daí a força profética da memória dos mártires da caminhada, confirmando e animando as lutas por direitos e por justiça em nosso tempo. Os mártires estão vivos e presentes nas lutas do povo, como dizia Oscar Romero, pouco antes de seu martírio: “Se me matam ressuscitarei no povo salvadorenho”[8]! Não sem razão dizia Tertuliano († 220) que o sangue dos mártires é “semente” de novos cristãos[9]. E não sem razão dizia Pedro Casaldáliga († 2020) que “não há nada mais subversivo que o cadáver de um mártir”[10].
O martírio e sua memória são sinal e fonte de esperança para os pobres, oprimidos e marginalizados: a) expressão de solidariedade e companhia com as vítimas de injustiça; b) um grito de denúncia das injustiças do passado e do presente; c) sinal de ressistência e confirmação das lutas por direito e justiça socioambiental em nosso tempo. Isso alimenta e mobiliza a esperança de um mundo melhor. Isso desencadeia processos e caminhos de esperança na sociedade. Isso faz de nós testemunhas e peregrinos da Esperança: de esperança em esperança, sempre a caminho… “Esperança do verbo esperançar”: ativa, militante, em combate – ferida, cansada, muita vezes, mas nunca derrotada! Esperança testada e regada com sangue martiral! Esperança Pascal!
Com os mártires da camihada, sejamos testamunhas da esperança!
Esperancemos o mundo na solidariedade e nas lutas por direitos!
[1] Presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte – CE; professor de teologia da Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) e da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP).
[2] PAPA FRANCISCO. “Discurso a um grupo de peregrinos de El Salvador” (30/10/2015). Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2015/october/documents/papa-francesco_20151030_el-salvador.html
[3] SOBRINO, Jon. Jesus, o Libertador: A história de Jesus de Nazaré. Petrópolis: Vozes, 1996, p. 385.
[4] CELAM. Documento de Aparecida: Texto Conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. São Paulo: Paulinas, 2007, n. 98.
[5] ASSEMBLEIA ESPECIAL DO SÍNODO DOS BISPOS PARA A REGIÃO PANAMAZÔNICA. Amazônia: Novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral – Documento Final. Brasília: CNBB, 2019, n. 16.
[6] LEÃO XIV. “Comemoração dos mártires e das testemunhas da fé no século XXI” (14/09/2025). Disponível em: https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/homilies/2025/documents/20250914-omelia-martiri.html
[7] SOBRINO, Jon. Jesus, o Libertador: A história de Jesus de Nazaré. Petrópolis: Vozes, 1996, p. 387.
[8] SOBRINO, Jon. “Monseñor Romero: Martir de la liberación. Analisis teológico de su figura y obra”. In: SOBRINO, Jon; MARTÍN-BARÓ, Ignacio; CARDENAL, Rodolfo. La voz de los sin voz: La palabra viva de Monseñor Romero. San Salvador: UCA, 2007, p 35-62, aqui p. 62.
[9] TERTULIANO. “Apologético 50,13”. In: Apologético e o Pálio. São Paulo: Paulus, 2021, p. 189.
[10] CASALDÁLIGA, Pedro. A cuia de Gedeão: Poemas e autos sacramentais sertanejos. Petrópolis: Vozes, 1982, p. 30.

