BENEDITO ALVES BANDEIRA

País do martírio:

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Mártir do Povo
Tomé Açu/PA * 04/07/1984

Benedito Alves Bandeira era seu nome. Benézinho, nome com o qual o povo carinhosamente o chamava, ou Bené.

Ele era, desde criança, um lavrador. Casado com Maria de Fátima Lima Bandeira, teve sete filhos. Chegou em Tomé-açu em 1974, vindo de Nova Timboteua, sua terra natal, onde nasceu em 1946, passou a morar e trabalhar no km 21 da rodovia PA-140. Sensível como era, logo percebeu a ausência de qualquer organização de trabalhadores e, como lutador do povo que era, teve a impressão de estar em um deserto. Por isso, preocupado com a situação de desprezo em que vivia a classe trabalhadora, deu início à Comunidade Eclesial de Base-CEB em seu lugar como um espaço de fé e luta. E logo desencadeou uma série de ações pela conquista de estradas, ramais, educação, terra legalizada, saúde e melhoria nos preços dos produtos dos lavradores.

Percebendo também a necessidade de um sindicato forte que defendesse os trabalhadores rurais, Benezinho jogou-se de corpo e alma na luta da oposição sindical, conseguindo a vitória em 1982. Quem testemunha é o sr. Dionísio, lavrador e morador no km 21 da PA-140: Eu comecei a trabalhar com Benezinho em 81, Na época era o Vavá presidente do sindicato dos trabalhadores rurais de Tomé-açu. Ele não queria o Bené como delegado sindical, pois seria uma espinha para ele. O Bené foi eleito por unanimidade, mas o Vavá não queria de jeito nenhum. Me fez ler por duas vezes a ata da votação… até que resolveu aceitar a vontade de todos. Aí veio as eleições para presidente do sindicato e vencemos após três eleições!… Aquele Reginaldo Rabelo, o interventor, era contra o trabalhador e se segurou no poder da lei para impedir que o Bené assumisse. Aí veio o deputado Ademir Andrade para reforçar. Pro Reginaldo não tinha mais nada. Assim ganhamos o sindicato que era dirigido pelos pelegos… Aí fazíamos grandes reuniões e o povo despertava para grandes coisas…: a terra. Muita gente queria terra!.. Fomos trabalhando, trabalhando e veio a briga pela Colatina… Bené, ele não media sacrifício. Tinha um espírito de lutador… Ele ia de bicicleta; não tinha luxo… botava o pé na estrada… e não se calava diante de quem quer que fosse. Diante da verdade ele não se acovardava. A luta dele era para que cada um tivesse o pão e a terra… é aquela frase: sem trabalho, terra e pão não sou cidadão. E´ como o índio: índio sem terra é como tronco jogado na beira da estrada… tá morto. Para mim a luta do Bené é esse caminho.

E dona Maroca, irmã de Benezinho reforça: … ele falava que não largava aquela luta, que não largava os colonos… ele pegava a bicicleta e andava pelas colônias, de casa em casa… Ele queria saber da luta, com muito gosto para dar gosto para as pessoas. Meu irmão morreu na luta, morreu pelo povo, mas morreu satisfeito..
Como presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais-STR de Tomé-açu, ouviu mais de perto o grito dos lavradores perseguidos e lançou-se com toda paixão até o martírio, na luta pela terra. O novo rumo que o Benezinho deu ao STR lutando através de todos os meios legais contra os fazendeiros que tentavam expulsar os posseiros que viviam de 20 a 80 anos na área, foi a causa de seu assassinato.

O latifundiário Acrino Azevedo Breda, vindo do Espírito Santo, no suleste do Brasil, foi um dos fazendeiros enfurecidos pela eficiente política sindicalista desenvolvida por Benezinho e seus companheiros de diretoria. O tal fazendeiro dizia-se dono de uma grande área de terra entre os municípios de Acará e Tomé-açu, incluindo a fazenda Colatina. Com o intuito de estender ainda mais o seu latifúndio, Acrino perseguia sistematicamente 70 famílias de posseiros que lá viviam há mais de 20 anos com direito a usucapião.

Benezinho, que já enfrentara outras duras lutas na Justiça em favor dos posseiros, conseguiu vencer também mais esta.

Foi então que Acrino Breda contratou, por dois milhões de cruzeiros, os pistoleiros identificados como Juracy Pedro de Souza, José Machado do Nascimento e Nathan, sendo a Colatina uma de suas bases. Por volta das 13 horas, os três pistoleiros estacionaram o veículo, um FIAT bege, a alguns metros da sede do sindicato e ficaram às proximidades. No momento em que Benezinho saia do sindicato, eles disparam três tiros dos quais um atingiu fatalmente a nuca. Benezinho faleceu em poucos minutos. O povo, descrente de providências que pudessem ser tomadas pela Justiça e revoltado com o assassinato frio e mortal de seu líder sindical, fez justiça com as suas próprias mãos, chacinando os pistoleiros.

Benezinho foi assassinado dia 4 de julho de 1984. O povo chorou copiosamente pelo sangue derramado desse companheiro que não hesitou em arriscar a própria vida para que outros pudessem ter mais vida, como bem testemunhou Bethy, filha de Benezinho: meu pai tinha muitos objetivos na luta dele. O maior de todos: viver numa terra que todo o mundo pudesse se beneficiar de maneira igual.

Os seus companheiros sindicalistas, diante do corpo velado na matriz da Igreja Católica de Tomé-açu, juraram de não descansar enquanto a fazenda Colatina não se transformasse em “Colônia Benedito Alves Bandeira”. Foi o que aconteceu três anos depois.

Os dizeres, estampados em uma imensa faixa na celebração de despedida, resumira o significado simbólico da luta do sindicalista assassinado: BENEZINHO: O HOMEM QUE DEU A VIDA PELO POVO.

Texto escrito por Elias Diniz Sacramento.

*Extraído da Tese: Poderão matar as flores, mas não a primavera: a construção de Benezinho e Virgílio como símbolos de luta pela terra no imaginário social do campesinato da região Guajarina. De autoria do Padre Sérgio Tonetto.
http://professoraedilzafontes.blogspot.com/2009/11/memoria-de-benezinho.html

BENEDITO ALVES BANDEIRA, Presente na Caminhada!

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Uma resposta

  1. bom dia. gostaria de assistir ao sobre todo o processo do assassinato do Benezinho, pois o único vídeo não tem boa qualidade. se existir outro, por favor nos indiquem a fonte.

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